Estudo projeta aumento de mortes por calor no Brasil - Resenha crítica - 12min Originals
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Estudo projeta aumento de mortes por calor no Brasil - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Como funciona o El Niño

O El Niño é um fenômeno natural que começa no Oceano Pacífico. As águas superficiais do mar esquentam acima do normal e os ventos alísios, correntes constantes que sopram em direção à linha do Equador, enfraquecem e às vezes chegam a inverter a direção. Isso altera os padrões meteorológicos e os ventos sobre o Pacífico, com efeitos em cadeia sobre chuvas e temperaturas em escala mundial. O ciclo reaparece, em média, a cada dois a sete anos, e seus efeitos podem durar até um ano.

O apelido "super El Niño" tem um limiar definido: ele é usado quando a temperatura da superfície do mar fica mais de 2°C acima da média histórica, patamar registrado apenas quatro vezes em cerca de 150 anos, em 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. O episódio atual foi declarado em junho de 2026, tem pico previsto para o fim do ano e, segundo a Organização Meteorológica Mundial e a agência climática dos Estados Unidos, pode se tornar o mais intenso já registrado. O Painel El Niño, boletim conjunto do INPE, do INMET e de outros órgãos federais, apontou em setembro mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre setembro e novembro.

É nesse contexto que aparece a notícia desta semana.

Quando a previsão do tempo vira previsão de mortes

No dia 23 de setembro, o Climate Impact Lab, centro de pesquisa ligado às universidades de Chicago e da Califórnia em Berkeley, publicou um relatório que faz algo incomum: projeta, com meses de antecedência, quantas pessoas devem morrer por causa do calor em cada país.

O método combina previsões sazonais de temperatura do centro europeu de meteorologia ECMWF com relações históricas entre temperatura e mortalidade calculadas para 24.378 regiões do mundo, levando em conta clima local, vulnerabilidade e capacidade de adaptação de cada lugar. O resultado é comparado com a média registrada entre 1996 e 2025.

Duas ressalvas vêm do próprio estudo. O que ele estima são mortes adicionais, ou seja, óbitos acima do que se esperaria nos mesmos meses de um ano considerado normal, e não uma contagem de mortes já ocorridas. E os cálculos ainda não passaram por revisão de outros especialistas: os autores dizem que os detalhes da metodologia serão publicados em um periódico revisado por pares.

"Há muito tempo conseguimos prever os impactos das temperaturas nas colheitas e agora podemos prever o impacto no pior cenário possível: a morte", afirmou em comunicado Michael Greenstone, cofundador do laboratório e professor da Universidade de Chicago.

O tamanho do número brasileiro

A projeção global é de 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor até fevereiro de 2027. Para dar escala, o relatório compara esse total às cerca de 6.800 pessoas mortas ou desaparecidas na recente enchente repentina que atingiu o Nepal: a estimativa do calor é cerca de 65 vezes maior.

Para o Brasil, a estimativa é de 13,3 mil mortes, com margem de erro de 700 óbitos para mais ou para menos. O país aparece na quinta posição do ranking global, atrás de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia, e é o mais afetado da América Latina. A projeção nigeriana, a maior da lista, é de 31,4 mil.

Por trás desses números está uma estimativa física simples de enunciar: as temperaturas médias sobre as áreas de terra do planeta devem ficar 1,2°C acima do normal nos próximos meses, o que se traduz em 44% mais dias de calor extremo do que em um ano comum. O relatório chama o episódio de "cartão-postal do futuro", porque as temperaturas previstas são semelhantes às que os modelos climáticos projetam para cerca de 20 anos à frente.

Onde e quando o calor deve bater mais forte no Brasil

A projeção brasileira não é homogênea. O Pará concentra a maior estimativa, com 2,3 mil mortes adicionais, seguido pelo Maranhão, com 1,3 mil, e por Amazonas e Bahia, com cerca de 1,2 mil cada. Norte e Nordeste reúnem as maiores projeções do país.

O calendário também é desigual. A maior parte das mortes projetadas para o Brasil deve ocorrer na segunda metade da janela analisada: entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, no verão, o estudo estima 8 mil mortes acima do normal. Para os autores, é justamente essa defasagem que abre espaço para agir antes.

O calor já chegou antes do verão

A primeira onda de calor da primavera de 2026 chegou no sábado, 26 de setembro, poucos dias depois do início oficial da estação. O Inmet emitiu aviso vermelho, o nível mais alto de uma escala que começa no amarelo e passa pelo laranja, válido até a quarta-feira, 30, para Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo inteiros e para partes de Mato Grosso, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em Cuiabá, a previsão chegava a 41°C.

O mecanismo é conhecido. Uma área de baixa pressão entre o norte da Argentina e o oeste do Paraguai empurra ar quente para o sul do Brasil, enquanto uma área de alta pressão em altitude faz o ar descer, comprimir e esquentar ainda mais. É o chamado domo de calor, uma espécie de tampa atmosférica que segura o ar quente sobre a mesma região e dificulta a chegada de massas mais frescas.

Para a primavera inteira, o Inmet prevê médias acima de 28°C no Norte e no Nordeste e em pontos isolados do interior, com intensificação de ondas de calor. No interior do Nordeste, segundo a Agência Pernambucana de Águas e Climas, o período coincide com o pico da seca e calor crescente.

Quem sente primeiro

O relatório aponta idosos, pessoas com doenças preexistentes e quem trabalha ou permanece longos períodos ao ar livre como os grupos que exigem atenção especial nos períodos de temperatura extrema. No Brasil, há evidência específica sobre o outro extremo da faixa etária.

Um estudo publicado no Journal of Global Health, conduzido pelo pesquisador William Cabral, do Instituto Pensi, mostra que o calor também contribui para o aumento das mortes de crianças menores de 5 anos no país, e que a primavera é a estação com maior número de internações hospitalares infantis. Segundo Francisco Ivanildo de Oliveira, gerente médico do Sabará Hospital Infantil, o aumento da temperatura vem acompanhado de maior concentração de poluentes no ar, o que pode agravar doenças respiratórias já existentes, como a asma.

E o risco não se distribui igualmente dentro de uma mesma cidade. Pela falta de árvores e pelas condições precárias de parte das moradias, as chamadas ilhas de calor fazem com que crianças de periferia sejam as mais afetadas. O pior desfecho, segundo os pesquisadores, aparece onde o clima, a condição socioeconômica e a dificuldade de acesso ao serviço de saúde se combinam.

Há ainda um efeito sobre quem trabalha. Um estudo de 2024 publicado no Journal of Economic Behavior & Organization, com dados da Relação Anual de Informações Sociais, concluiu que choques trimestrais de calor aumentam a probabilidade de demissões formais na indústria de transformação, com efeito maior em ocupações manuais e rotineiras.

O que fazer com essa informação

O que o estudo oferece não é uma sentença, é um calendário. O período de maior risco no Brasil está projetado para dezembro, janeiro e fevereiro, o que deixa alguns meses de preparação.

Vale acompanhar os avisos de onda de calor do Inmet e da Defesa Civil local, lembrando que o vermelho é o nível mais alto da escala e que os alertas trazem a validade e os estados cobertos. Vale também acompanhar o que já foi anunciado em termos de política pública: o plano do Ministério da Saúde para o El Niño de 2026-2027 define outubro a março como janela crítica e prevê, no Nordeste e no Sudeste, mapas de calor, zonas de resfriamento, pontos de hidratação e protocolos assistenciais. O AdaptaSUS prevê ainda uma diretriz nacional para emergências de saúde pública provocadas por calor extremo. A pergunta prática é em que estágio essa diretriz está e como ela será articulada com estados, municípios e medidas de proteção aos trabalhadores mais expostos.

Entre as medidas que o próprio relatório recomenda estão sistemas de alerta precoce, visitas domiciliares a populações vulneráveis, centros de resfriamento, pontos de hidratação, proteção de quem trabalha ao ar livre e reforço da capacidade dos sistemas de saúde.

No plano doméstico, a recomendação dos médicos ouvidos sobre saúde infantil é orientar as famílias a evitar atividades externas nos horários em que a temperatura está mais elevada, com atenção redobrada a crianças pequenas, idosos e pessoas com doenças preexistentes. Na sua casa, no seu bairro ou no seu trabalho, quem são as pessoas que vão precisar de alguém olhando por elas quando o alerta vermelho aparecer de novo, agora no verão?

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